Ilha de Faro: Quem Assume as Responsabilidades em Caso de Catástrofe?
Ao longo do mês de Setembro ocorreram duas peças jornalísticas na SIC, relativas à Ilha de Faro, que me deixaram preocupado.
No dia 8 de Setembro, o Prof. Alveirinho Dias - docente da Univ. Algarve - alertou para o facto de, perante um grande temporal, se poder assistir a uma situação catastrófica na Ilha de Faro. E enquanto a situação é igualmente perigosa em Vale do Lobo, nesta zona de arribas, haverá tempo para pôr pessoas e bens em segurança perante o avanço das águas. Na Ilha de Faro, não! Tudo poderá acontecer de repente e sem tempo de resposta para os habitantes.
No dia 18 de Setembro, foi noticiada uma maré-viva na Ilha de Faro, onde as águas do oceano e da ria formosa se encontraram.... na estrada! Habitantes locais não se lembram de terem visto situação semelhante em Setembro, o que demonstra que algo estranho poderá estar a acontecer. As causas desta situação parecem ser múltiplas, desde os molhos de Vilamoura/Quarteira, até à ponte para a Ilha e passando pela construção criminosa, alguma dela com diversos pisos!, espalhada por toda a Ilha. Citando o Prof. Alveirinho Dias (Público, 17.06.2001), "... as causas naturais têm contribuído apenas em 15 por cento para o recuo da linha de costa. Os restantes 85 por cento devem-se a causas induzidas pelo homem...".
Os interesses instalados são fortíssimos. Grandes faixas da sociedade Farense têm interesses na Ilha de Faro, uns devido às moradias que lá dispõem e os outros devido ao Parque de Campismo (leia-se "Santa Casa da Misericórdia para uns quantos") que ocupam todo o ano, mas só desfrutam no Verão.
A juntar a tudo isto, existem diversas entidades com jurisdição na Praia de Faro, salvo erro, a Capitania, a Câmara de Faro e o Parque Natural da Ria Formosa.
Ou seja, a culpa da situação é do homem, os interesses - legítimos, diga-se - são poderosos, a jurisdição é múltipla e a vontade política parece ser escassa.
Se a decisão fosse destruir todas as casas e fazer da Ilha de Faro algo de semelhante à de Tavira, haveria certamente que suportar custos financeiros elevadissímos com as indeminizações, mas haveria certamente várias vantagens para o comum cidadão e em termos ambientais.
Entretanto, parece que ninguém se preocupa.... Enquanto isso, a erosão costeira avança, impiedosa e implacável...
A questão fica colocada nesta página: "Quem se responsabiliza em caso de catástrofe?"
João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Notícias do Algarve 01.10.2001
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