Referendar...até vencer!
Nos últimos anos começámos a ouvir falar de referendos. Passámos depois a discutir se devíamos fazer referendos. Acabámos a fazer dois referendos e a deixar um pelo caminho.
Com o último referendo realizado na Irlanda, mais o que se deu no início dos anos 90 na Dinamarca e com os dois referendos Portugueses pode-se tirar uma deprimente conclusão: há que referendar até vencer!
Na Dinamarca o povo, legitimamente votou contra a integração na, então, CEE. Meses depois novo referendo e o povo, finalmente, - Ufa! Que alívio! - votou sim à adesão na CEE.
Na Irlanda a população recusou o Tratado de Nice e o governo já afirmou que daqui a uns meses fará um novo referendo.
Em Portugal a IVG (Interrupção Voluntária da Gravidez) perdeu nas urnas e já se fala em voltar a colocar o assunto em discussão pública.
No mesmo cantinho da Europa à beira-mar plantado, o Presidente da República já começou a retomar o tema da Regionalização, primeiro algo envergonhadamente e depois a plenos pulmões. Segundo o nosso PR, o que foi derrotado nas urnas foi um mapa, nada mais!
Não interessa, por agora, abordar o que foi feito em Portugal para minorar o problema da IVG e o da não descentralização.
Importa analisar o valor que se dá ao voto livre e democrático dos cidadãos: nenhum! Em qualquer dos 4 casos apresentados a população pronunciou-se numa determinada forma, das várias possíveis: voto nulo/branco, abstenção, sim ou não. Assim sendo, pergunta-se: o "não" vale menos do que o "sim"? Terá menos dignidade? Será o voto errado? É politicamente incorrecto? Não convém?
Nos exemplos do estrangeiro, o 2º referendo parece ser a arma a utilizar. Em Portugal não deverá ser porque se esperam resultados idênticos aos do 1º. Deverão tentar arranjar outras formas mais nebulosas para chegarem onde o povo não quis que chegassem...
Com este panorama, como é que se pretende credibilizar a política e os políticos, se o que é referendado logo é esquecido? O vulgar cidadão há de se questionar: "Para que querem aqueles tipos o meu voto se eles não o respeitam!" ou "Porque é que andam a gastar milhares de contos para ouvirem o Povo, se depois decidem tudo nos gabinetes?". Se o "sim" tivesse ganho estariam agora interessados em voltar a debater o assunto? Em realizar novos referendos?
Para além de demonstrar um mau perder e uma falta de respeito por quem vota em referendos, ficamos todos a saber que há que referendar..... até vencer!
João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Notícias do Algarve 20.08.2001
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