Por estranho que possa parecer fui ao Avante, a grande festa do PCP! Juntamente com um grupo de amigos, dos quais apenas um é comunista (daqueles ortodoxos valentes!) e os outros todos de outras esquerdas. Aliás, grande parte dos visitantes não devem ser comunistas, senão a expressão eleitoral do PCP seria outra.
Fui pela segunda vez ao Avante - a outra tinha sido em 1990 - e posso-vos dizer que vale a pena, política à parte, é claro!
O PCP é o único partido que consegue, com base em mão-de-obra dos militantes, organizar um evento destes para centenas de milhares de pessoas, com gastronomia de todos os pontos do país e de alguns países estrangeiros, uma oferta cultural rica e variada (3 palcos com música e outro com teatro), enfim, uma boa festa.
Cada região e país convidado têm um espaço onde tem o seu restaurante e a venda de alguns produtos típicos. Posso-vos dizer que na Sexta-feira jantei muamba de galinha no MPLA (Angola), bebi caipirinha no PT brasileiro e tomei o pequeno-almoço de Sábado na Frelimo (Moçambique).
Os próprios participantes são muito diversificados, indo desde o velhote com a sua esposa que ostentam orgulhosamente o emblema do PCP, até malta nova de cabelo rapado e umas antenas de cabelo a saírem de três pontos da cabeça. Há de tudo e para todos os gostos.
Uma situação engraçada é que não nos deixam esquecer por um minuto que seja que estamos numa organização do PCP. Para qualquer lado que a pessoa se volte tem uma faixa contra o pacote laboral, a globalização, o governo de direita, por melhores salários, vamos cumprir Abril, etc.
Em vários espaços há debates sobre os mais diversos assuntos, como sejam a globalização ou a reforma do sistema político. O problema é que não são debates, são comícios em que ninguém destoa, onde um diz mata e o outro esfola. Vozes discordantes não existem.
Digamos que é na festa que a famosa cassete comunista é reciclada anualmente, dando novos argumentos aos trabalhadores contra esses seres horríveis que dão pelo nome de patronato e contra o governo reaccionário de direita que atenta permanentemente contra os direitos e liberdades dos trabalhadores, contra as conquistas de Abril, dizem.
Cuba é o mito. Depois de terem perdido a referência da União Soviética, resta-lhes Cuba. Por todo o lado há peditórios para ajudar Cuba, quando há bem pouco tempo José Saramago e o próprio PCP criticaram o desrespeito pelos direitos humanos nesta ilha.
Refira-se a homenagem do Avante deste ano ao poeta José Carlos Ary dos Santos, autor de letras de várias canções e fados famosos. Logicamente, foram mais evidenciados os poemas de pendor mais revolucionário, sempre apelando aos sentimentos anti-patronato, pela reforma agrária, etc.
Gostei de ouvir. Porque era um excelente poeta e porque me fez transportar para o Portugal do pós 25 de Abril. Aliás, também gosto de Zeca Afonso, Sérgio Godinho e outros. Porque não tenho complexos e considero que o que escreveram e cantaram não é um património da esquerda, como alguma esquerda reivindica e maioria da direita aceita, mas um património de todos os que amam a democracia e não suportam viver sem liberdade.
Vou deixar para o fim uma das frases que estava em mais cartazes e que também é o fim do poema "As Portas Que Abril Abriu".
"Agora ninguém mais cerra as portas que Abril abriu!"
Será que o essencial das conquistas de Abril está em perigo? Para quê uma permanente viagem ao passado para irem buscar argumentos "de Abril" para justificar o que não gostam no Portugal de hoje, mas que foi sufragado nas urnas pela maioria?
João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Jornal do Algarve 18.09.2003