O Algarve é o principal destino turístico de férias dos portugueses e igualmente alvo da cobiça externa, tendo no fundo para oferecer um único produto: o turismo de "sol e praia", o que torna a economia da região algo volátil (imagine-se a tragédia do "Prestige" na nossa costa!). Existe, porém, uma forte pressão urbanística em pontos chave do litoral Algarvio, com a consequente degradação ambiental e da qualidade da oferta turística produzida.
Na realidade, por cada casa térrea, tipicamente algarvia, existe um edifício contíguo de 5 a 10 andares - é esta a nossa realidade, infelizmente. Por que será que em plena recessão no mercado nacional de venda de imóveis (sobretudo adquiridas com recurso ao crédito bancário), que obrigou ao decréscimo generalizado do p.v.p, o Algarve mantém intactas as suas listas de espera para a aquisição de apartamentos tipo T2 e T3?
Julgo que é a confluência de alguns factores que tornam única esta região do país situada no extremo ocidental da Península Ibérica: a sua localização periférica, as suas características morfológico-geológicas e um clima mediterrânico que proporciona aos residentes e visitantes longas horas de prazer estirados nas praias de areia dourada banhadas por águas cálidas...
Tendo como principais fontes de rendimento a pesca, agricultura e o turismo, é sem dúvida do último que a desenfreada construção anda a reboque. Não me tomem por força de bloqueio ao normal e inevitável desenvolvimento da construção civil por terras de tão rara beleza, onde a apologia às lindas escarpas, às escaldantes dunas e ao pitoresco ambiente deveria ser quem mais ordena, todavia... não o é.
Contudo, é bom não esquecer que o turismo que convida e convence é aquele que é o mais aproximado dos nossos idílicos destinos de férias: um sítio com belas praias, é certo, mas envolvidas num espaço ordenado, onde a construção térrea, tradicional e pitoresca se mantém conservada no centro das cidades, se possível rodeada de espaços verdes bem cuidados. As habitações ditas modernas, por andares (iguais em todo o lado e que ninguém quer visitar!), ficariam confinadas ás zonas limitrofres das cidades.
Cada região deve jogar com os trunfos que possui: são 220 Km de faixa costeira, é um facto. Mas é impossível continuar por muito mais tempo a construir nas dunas e em cima das praias sob pena de uma grave, e já notória, perda de sentido estético-organizativo do nosso litoral e da própria qualidade de vida dos visitantes e, sobretudo, dos residentes, que vão sendo cada vez mais. Aliás, a partir da década de 70, o Algarve tem-se revelado a região nacional mais atractiva em termos demográficos, segundo um estudo elaborado em tempos pela Comissão de Coordenação da Região do Algarve.
Como conjugar a manutenção de espaços verdes aprazíveis, centros históricos não desvirtuados e um crescimento urbanístico inevitável? É fácil, olhe-se para "nuestros hermanos", para Sevilha por exemplo. Evoluir por evoluir, antes regrada que desenfreadamente.
Hugo Barros Leonardo
Advogado
Jornal "Região-Sul" 28.05.2003