logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

Apologia da formação profissional

Já vai sendo um lugar comum dizer que o país necessita urgentemente de profissionais qualificados em determinadas áreas de actividade que, ao longo do tempo, têm vindo a perder atractivamente, principalmente em termos sociais. Podemos integrar neste caso profissões como canalizadores, pedreiros ou serralheiros, apenas para citar alguns exemplos. E a prova desta situação são os números de ofertas de emprego naquelas áreas que são divulgadas com regularidade em vários meios, e permanecem por preencher.

Por outro lado, existe excesso de diplomados em algumas áreas, nomeadamente na da educação como mostram os números recentes - mais de 27.000 professores não colocados após o início de mais um ano lectivo. Analisando estes factos e números, poderá dizer-se que o país está a formar profissionais para o desemprego, ao mesmo tempo que o sistema de formação profissional não tem capacidade ou não consegue aliciar os jovens ou adultos desempregados para receberem formação nas áreas mais carenciadas, e posteriormente integrarem o mercado de trabalho, colmatando as necessidades existentes. Donde partirá então este desajustamento do mercado de trabalho nacional?

Será certamente, em grande parte, da mentalidade vigente no país, talvez fruto do isolamento a que esteve submetido até ao 25 de Abril, e que faz com que hoje os títulos académicos sejam tão valorizados, em detrimento dos títulos técnicos, que pelo contrário são desvalorizados.

É pois, muitas vezes, a busca do título de Dr. ou Eng.º que leva muitos jovens, concluído o 12º ano, a prosseguir estudos universitários para um qualquer curso, para o qual apresentam maior ou menor vocação, mas que garantirá certamente o dito título, sem equacionarem sequer as alternativas existentes ou as hipóteses de emprego futuras.

Mas será que esses jovens estão conscientes que um bom canalizador poderá ganhar no final do mês vários milhares de euros, enquanto um licenciado em início de carreira, caso obtenha emprego, dificilmente passará dos mil euros?

Actualmente o sistema de ensino universitário, em algumas áreas, "fabrica" um conjunto de licenciados que não obtêm colocação na área profissional onde realizaram o curso superior, ou auferem salários bastante baixos face às qualificações adquiridas, o que em ambas as situações trará desmotivação e consequentemente maus profissionais a prazo.

Para tal situação, não será alheio o sistema de financiamento das Universidades, que leva estas instituições a aumentarem a sua oferta de cursos, por forma a assegurar um número elevado de alunos e respectivas verbas, fazendo-o sem considerar as reais necessidades do mercado de trabalho. A culpa é também da falta de planeamento a médio/ longo prazo, que a ser feito permitiria certamente aos jovens, em sede de inscrição num curso superior, terem acesso a informação sobre profissões de futuro e optarem com maior segurança por um curso com maiores perspectivas de emprego e às Universidades oferecerem cursos que dessem aquelas garantias.

Quanto ao sistema de formação, muitas vezes esquecido, mas felizmente cada vez mais falado nos tempos recentes, é um sistema que apresenta um conjunto de virtudes e potencialidades que importa divulgar e explorar em prol do país.

Assim, se olharmos para o sistema de formação profissional público, constata-se que a oferta formativa é bastante alargada e diversificada no que respeita a áreas de formação e públicos a abranger. Numa análise à oferta formativa e instalações de alguns Centros de Formação Profissional públicos, verificamos que possuem todas as condições para formar profissionais em áreas tão diversificadas como a jardinagem, a electricidade, construção civil, esteticismo, cabeleireiros, secretariado e administração, informática, serviços pessoais de apoio a crianças e idosos, entre outras.
Nestas estruturas convivem pois, áreas tidas por mais e menos "nobres".
Aquelas estruturas implementam um conjunto de programas dirigidos aos mais diversos públicos, como jovens ou adultos, empregados ou desempregados.

E uma das grandes virtudes da maioria desta formação, é possuir uma componente de formação em posto de trabalho, o que facilita e abre portas à (re) integração dos formandos no mercado de trabalho após o final da mesma.

Os dois sistemas, formativo e universitário, são pois complementares e importantes para o desenvolvimento do país, desde que integrados num sistema planeado de educação/ formação da população.

Num jornal diário recente, foi publicada uma notícia referindo que a oferta de cursos superiores passará a estar condicionada a estudos sobre a evolução dos mercados e perspectivas de necessidades futuras de profissionais. Aguardemos para ver, mas para já é um sinal positivo, pois a concretizar-se permitirá um aproveitamento mais racional dos recursos materiais e humanos do país.

Há dois anos atrás, um cronista desta coluna escrevia sobre a necessidade de dignificar algumas profissões. Voltei ao assunto passado todo este tempo pois urge mudar esta situação e todos temos de contribuir para isso...

Carlos Jorge Baia
Gestor de Empresas
Jornal do Algarve 25.09.2003

 

Jornal do Algarve

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