Ano novo, fogos velhos
Mais um Verão, e mais uma vaga de incêndios a assolar o nosso país.
Em Portugal as florestas representam um grande valor económico e social, contribuindo para a sustentabilidade económica de muitas regiões. Um terço do nosso território está ocupado pela floresta estando outro terço ocupado por mato.
Só no ano passado, o pior de sempre em matéria de incêndios, arderam 400 mil hectares de floresta, 2/3 dos quais correspondiam a área plantada, correspondendo a restante a mato.
Refira-se também que parte daquela área, cerca de 11%, situou-se no distrito de Faro.
Este ano, e de acordo com o Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil, até ao dia 18 de Julho já tinham ardido cerca de 26 mil hectares. Em 2003, e em igual período, arderam 21 mil.
Estes incêndios espalham-se por todo o país, e, no caso do Algarve, muitos concelhos já foram atingidos por este flagelo: Faro, Tavira, Castro Marim, Monchique, Loulé, Silves e Alcoutim.
A título de curiosidade refira-se que o interior do Barlavento algarvio é considerada um zona de risco alto, sendo o Algarve central e sotavento consideradas zonas de muito baixo risco, no que toca a incêndios.
Quanto às culpas ou causas, é sabido são muito variadas, e que vão do descuido ou negligência, a fenómenos naturais ou mesmo a fogo posto. Neste ultimo caso as razões prendem-se inevitavelmente com interesses imobiliários ou económicos ligados à área da celulose, à caça ou simplesmente à loucura de quem ateia o fogo.
Mas, se é inevitável que os incêndios aconteçam, seja por que causa for, já não será inevitável que se criem ou reforcem mecanismos de prevenção, fiscalização e punição daquelas situações.
No âmbito da prevenção, o êxodo rural associado à falta de um plano de ordenamento florestal, à pequena dimensão das propriedades e à atitude de muitos proprietários levou a que o mato, grande inimigo dos bombeiros em caso de incêndio, tomasse conta de muitos campos, pelo que importava definir planos de florestação e intervenção.
No âmbito da fiscalização, deveriam ser alargar experiências bem sucedidas ao nível de vigilância por meios humanos ou sistemas de vídeo. Aqui e ali vão sendo divulgadas boas experiências que permanecem restritas às zonas piloto não sendo difundidas ao resto do país.
Uma maior utilização de militares, de desempregados que recebam o subsídio de desemprego ou a contratação de equipas especializadas para vigilância de matas e florestas também poderia seguramente evitar muitos incêndios.
Certamente que todas as soluções de fiscalização, que inevitavelmente apresentam custos, sairiam mais baratas que os prejuízos resultantes dos incêndios.
Por fim a punição exemplar, e divulgação da mesma nos meios de comunicação social, daqueles que são identificados como responsáveis pelos fogos postos teria certamente um efeito dissuasor.
Depois de tudo e se mesmo assim não se conseguirem evitar os incêndios, torna-se necessária uma intervenção rápida sobre o terreno ardido, por forma a evitar a erosão do mesmo.
Há pois ainda um longo caminho a percorrer no combate aos incêndios, para evitar a tragédia que todos os anos atinge a nossa floresta.
Uma última palavra para todos aqueles que desprovidos de qualquer civismo continuam a deitar beatas acesas para o chão em zonas de matas, dando muitas vezes origem, de forma estúpida, a incêndios.
Pensem duas vezes antes de o fazer, e não o façam!!!
Carlos Jorge Baia
Gestor de Empresas
Jornal do Algarve 05.08.2004
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