logo ALTERNATIVA por Ricardo Baptista

O défice escolar português ou a aprendizagem ao longo da vida

Já tinha decidido iniciar a minha participação nesta coluna, falando sobre os Centros de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (CRVCC), estrutura tão importante quanto a dimensão e pomposidade do seu nome, de que falarei mais adiante, quando vejo os dados publicados no Jornal "Expresso", na sua edição de 2002.09.21, relativos ao grau de escolaridade dos trabalhadores por conta de outrem - 58% possui habilitações escolares até ao 6º ano. Muito preocupante numa altura em que tanto se fala de produtividade e competitividade da economia portuguesa.

É sabido que o desenvolvimento e competitividade dos países e regiões e empresas passa pela qualificação dos seus recursos humanos, pelo que se torna indispensável e urgente a criação de instrumentos que permitam elevar a escolaridade da nossa população.

Curiosamente o mesmo Jornal, faz referência a um estudo que concluí que os trabalhadores com o 12º ano, apresentam um acréscimo de remuneração entre 7,5% e 35%, face aos trabalhadores que possuem o 9º ano de escolaridade.

Mas, passemos ao CRVCC. É hoje reconhecido que ao longo da vida, os indivíduos vão aprendendo, isto é, vão adquirindo conhecimento e competências, em diferentes situações, como no local de trabalho, ao ver televisão, a ler jornais e revistas, no seu dia a dia nos contactos que estabelecem, não tendo (até agora) como ver esses saberes adquiridos traduzidos num certificado comprovativo dos mesmos. Sabemos também que os Certificados escolares são essenciais para efeitos de progressão na carreira....que o digam os funcionários da Administração Pública.

Pensemos então num exemplo de uma secretária que trabalha diariamente com computadores, sabe efectuar cálculos e redigir textos fluentemente, ou em alguém que apesar de formalmente apenas possuir o 4º ano de escolaridade, colabora com um jornal nacional, redigindo regularmente artigos.

Aqueles são exemplos reais e é certamente legítimo ao seus actores aspirarem a ver as suas competências reconhecidas num certificado académico correspondente aos conhecimentos demonstrados.

O processo de reconhecimento e validação de competências adquiridas ao longo da vida, que é já uma realidade noutros países da Europa, tem vindo a funcionar em Portugal desde Novembro/2000, então com 4 Centros, prevendo-se que até 2006 esteja criada uma rede de 84, espalhados por todo o território nacional.

Refira-se que no Algarve, a primeira (e até agora única) estrutura deste tipo a funcionar se encontra instalada no Centro de Formação Profissional de Faro, do IEFP.

Quanto a resultados, os primeiros estão à vista. Parte significativa dos adultos que já concluíram este processo com aproveitamento, no Algarve, obtiverem emprego (aqueles que se encontravam na situação de desempregados) ou, optaram por prosseguir estudos por via de inscrição em Escolas Secundárias. Refira-se que neste momento os CRVCC procedem à validação de competências até ao 9º ano de escolaridade.

Daqui retira-se que o funcionamento destas estruturas tem (pelo menos) dois efeitos positivos para os indivíduos: possibilidade de progressão profissional e um enorme satisfação e motivação pessoal.

Este é pois um processo "de soma positiva". Todos ganham. O adulto pois recebe um diploma que traduz os conhecimentos e competências que foi capitalizando ao longo de uma vida, abrindo novas portas profissionais e escolares. As empresas que passam a dispor de trabalhadores mais motivados, com reflexos positivos no seu desempenho. A economia como reflexo do ganho das empresas. E finalmente o Estado, tantas vezes criticado, vê também os seus méritos reconhecidos por via da criação de uma estrutura de tamanha importância.

Falta-nos agora saber se a tal teoria que relaciona escolaridade e rendimento se aplica à realidade.......

Carlos Jorge Baia
Director do Centro de Formação Profissional de Faro
Jornal do Algarve 10.10.2002

 

Jornal do Algarve

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